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quinta-feira, 23 de junho de 2011

Meia-noite em Paris

Sempre à meia-noite começa o sonho do escritor americano em Paris, deslumbrado com a cidade que, décadas atrás, reunira as almas criativas e sensíveis que tanto admira.

Em seu último filme, Woody Allen consegue agradar inclusive aqueles que simplesmente se divertem com os encontros surreais do personagem principal com cada um dos escritores do passado por ele reverenciado, enquanto tenta dar nova forma ao romance que está para concluir. Sem falar no hilário fim dado ao detetive contratado pelo pai de sua noiva para descobrir as estranhas “ausências” noturnas do futuro genro.

Mas a verdade parece ser que Allen encontrou uma interessantíssima maneira de falar sobre a intertextualidade. Da qual todo aquele que se aventura pelo mundo da escrita acaba descobrindo-se incapaz de escapar.

Pois não só o personagem, ao escrever, revisita aqueles dos quais recebeu alguma influência direta ou indireta, como também acaba por “ver” referências a si mesmo em um velho livro garimpado em uma loja de antiguidades. Momento que acena magicamente para a certeza de que cada um de nós, além de influenciado pelas leituras feitas, faz uma leitura única de tudo aquilo que escolha ler, “influenciando” inclusive aqueles escritores de um tempo no qual sequer sonhávamos existir.

De quebra, em “Meia-noite em Paris”, podemos acompanhar o fortalecimento interior do escritor, que acaba por desvencilhar-se do compromisso com uma noiva não muito afim com sua sensibilidade e, depois de encontrar – numa daquelas visitadas figuras do passado – sua, como diria Jung, anima ( a parte feminina da alma do homem ), parece pronto para estabelecer, no mundo real e presente, um sadio relacionamento amoroso.

Enfim, não podemos deixar de registrar o posicionamento crítico do cineasta em relação ao “Tea Party”, extrema-direita americana ( seria em protesto que o escritor no filme acaba por se instalar definitivamente em Paris? ), que, por alguma razão, me levou a recordar “Mal-estar na modernidade”, de Sérgio Paulo Rouanet:

“A miséria brasileira não está no transplante cultural, está na denúncia ideológica do transplante cultural, está na ideologia da autenticidade cultural. Essa ideologia torna invisíveis as iniquidades locais e funciona segundo o mecanismo de defesa que Freud chama de “Verschiebung”, pelo qual a atenção é desviada de um tema central e conflitivo ( as relações de poder ), para um tema acessório e inócuo [...]”

Rouanet esclarece:

“Se retificássemos os termos do problema, desfazendo a astúcia da “Verchiebung”, as relações do poder reassumiriam o primeiro plano, e nesse caso a política cultural passaria a significar não a defesa da autenticidade nacional contra a imitação da cultura estrangeira, mas a incorporação das classes populares, enquanto consumidoras e produtoras de cultura, aos circuitos brasileiros e estrangeiros da cultura universal, como um dos aspectos do processo sócio-econômico de emancipação dos trabalhadores e de sua ascensão a uma modernidade que seja mais que puramente ideológica.”

Obs. Talvez Paris haja sido escolhida para ambientar o último filme de Woody Allen tanto por conta de sua história culturalmente efervescente quanto por sua atual política social.
Segundo o jornal “O Globo”, de 12 de junho último, a vice-prefeita da cidade, Anne Hidalgo, vem tentando por em prática a proposta dos grandes arquitetos, segundo os quais, a solução para a violência e outros males é “misturar a população, ao invés de afastar as classes de baixa renda para as periferias ou para as favelas”.