domingo, 14 de abril de 2013
Um amigo para o fim do mundo
Filme despretensioso, mas profundo, que nos faz lembrar das palavras do poeta que previa que, de uma ou de outra maneira, mais ou menos velhos, em meio a uma ou outra atividade, um dia, cada um de nós será simplesmente "interrompido".
segunda-feira, 18 de março de 2013
Lincoln
Saímos do cinema, após assistir a “Lincoln”, com uma
pergunta fixa:
Então, os fins justificam os meios?
Segundo um amigo, cada caso é um caso e deve ser estudado
cuidadosamente...
Então, por que sempre queremos generalizar, protegendo-nos
com regras absolutas?
Depois de muito refletir, cheguei a uma conclusão bastante
simples.
A verdade é que, de certa forma, o fim sempre justificou os meios, desde que esse fim fosse realmente relevante.
Determinar o realmente relevante – em situações que não contem
com a ajuda de qualquer descrição legal - é que talvez seja a grande e perigosa questão...
No caso de "Lincoln", acabar com a escravidão talvez possa ser
encarado como legítima defesa, uma vez que os negros eram cotidianamente
vítimas de crimes bárbaros. E, em legítima defesa de si mesmo ou de outrem,
como sabemos, todas as leis se relativizam, desde que não haja vítimas
inocentes.
1) Django deixa um escravo inocente ser devorado vivo por cães raivosos,
notadamente com o objetivo de convencer o dono da fazenda das alegadas motivações
de sua ida até ali, o que poderia lhe abrir caminho na busca de sua esposa...
Sendo que o escravo era totalmente inocente em relação ao sofrimento da escrava
em questão; não sendo sequer possível associar, com segurança, a libertação da
mulher ao chocante episódio, não pode haver justificativa ou atenuantes para tal barbaridade.
2) O ex-escravo Django se dispõe a participar do crime institucionalizado,
ao se associar ao “carismático” matador
alemão que lhe surge pela frente.
Obs. Em “Django livre”...:
Como um tipo de crime institucionalizado pode ser melhor do
que outro? Quem garante que toda a lorota que o alemão contava sobre cada uma
de suas vítimas fosse sempre a pura verdade?
Novamente, nada de meios justificados.
O SOM AO REDOR
Esse filme me lembrou da impressão muitas vezes tida diante
de obras russas... Aquela coisa do “durante” um pouco cansativo, monótono,
confuso mesmo; seguido de um final forte, capaz de juntar todas as peças, dando
sentido impactante à trama.
“O som ao redor” trata da herança de sangue, ou melhor, da
herança sanguinolenta transmitida pelo “senhor de engenho” ao neto preferido,
metaforizada no banho de cachoeira cujas águas de repente parecem se tornar
rubras sobre a cabeça do rapaz...
Participando diretamente dos negócios “lavados” do avô, o
rapaz é figura interessante...
Briga com o primo, dito ovelha negra da família, que,
assaltante" barato", teria roubado o cd-player do carro de sua namorada...
No entanto, após constatar que o som recuperado não era o da
moça, não coloca qualquer objeção quando ela, afirmando ser aquele aparelho
melhor do que o seu, resolve dele se apoderar...
“O som ao redor” trata, em resumo, dos sons cotidianos a
abafarem toda a injustiça que, através do tempo, geração após geração, perpetua
o poder nas mãos dos mesmos.
Enfim, compreendemos que, de um e outro lado, de uma ou de
outra maneira, a revolta se materializa...
O neto "vergonha da família", por exemplo, parece, em suas incompreensíveis
incursões pelo crime, querer gritar:
“Ei, olhem para mim! Vejam o que é, na verdade, toda a minha
família!
sexta-feira, 15 de março de 2013
AMOR
Por que entendemos como amor o
gesto do velho que mata a companheira debilitada e a caminho do desenlace natural,
entregando-se depois à própria míngua?
Provavelmente porque tudo o que
vemos interpretamos com olhos neoliberais viciados pela propaganda da beleza,
da juventude eterna, da produtividade capitalista, da ilusão da vitória sobre a
morte... E, dessa perspectiva, pode parecer heróico abreviar-se o período em
que a consciência da morte se agudiza. Porque, por incrível que possa parecer,
a morte, magicamente, livra a todos da própria morte.
“A morte está acabada. Não existe
mais”
De qualquer forma, “Amor” é um filme
bonito.
Importante testemunhar a
realidade daquilo que somos: simples pontes para os que vêm depois: os
descendentes...; os alunos, que todos temos, sejamos professores, ou não... A
melhor lição dada, pelo casal de músicos, ao jovem ex-aluno, com certeza foi
deixá-lo entrar em sua casa, e testemunhar de perto o quanto iam ali, pouco a
pouco, se confundindo com o livro na prateleira, o piano mudo, o quadro
empoeirado...
A verdade é que somos mesmo como as
formiguinhas que, afogadas em uma poça d’agua, acabam por servir de caminho mais
seguro para as que vêm atrás...
Pontes.
Como dizia Teilhard de Chardin, a
humanidade nada mais é do que uma imensa “esteira de existências esmagadas”...
E “Amor” nos leva a pensar...
Por que fazemos tanta questão de fugir
da verdade?
Por que confundimos com perda de
dignidade a velhice e o próprio sofrimento das doenças limitantes que a acompanham?
Será por conta desta mesma
confusão que nossa sociedade ainda exclui todos os portadores de qualquer tipo
de deficiência?
Não parece ser outra a confusão
que, no filme em tela, logo se lança sobre o espectador... Afinal, o título
“Amor” nos induz a compreender como romântico o gesto do marido que, não sendo
capaz de aceitar seus próprios limites(o pedido de socorro lhe vem inclusive em
forma de pesadelo), e não admitindo que a esposa (Anne) fosse cuidada por
profissionais, da maneira adequada, acaba por antecipar o fim de sua história.
Infelizmente, não são poucos
(vide a filha de Anne e uma das enfermeiras a princípio contratadas pelo velho)
os incapazes de “cuidar” nessa nossa sociedade “big brother” que vive do
individualismo, da exclusão, do lucro, da ambição, da competição, do descarte,
da ilusão; e na qual cada um parece viver no incrível autoengano de que seu dia
D possa ser infinitamente adiado...
Dessa forma, não é difícil
compreender que o medo de vir a não dar conta dos cuidados com a companheira,
e, depois, de vir a cair na mesma situação de dependência "assustadora" em que a mulher mergulhara possa haver movido o músico
em suas últimas decisões. Quem sabe se refletisse um pouco mais, ou se
estivesse mais descansado, as coisas se encaminhassem de outra maneira...
Pois a verdade é que morreremos
todos.
A verdade é que o avançar do
tempo sempre nos premiará com algum tipo de deficiência, de limitação.
E nossa decadência deve servir,
sim (e esse serviço prestado por cada velho decrépito não tem salário que pague,
além de, ao contrário do que propagandeiam, dignificar o fim de qualquer
história), enquanto dure, para que nossos próximos – filhos, netos, amigos,
cônjuges, vizinhos, cuidadores - possam mirar seu próprio fim. Boa oportunidade
para amadurecerem e se tornarem criaturas mais humildes e humanas; mais capazes
de se identificarem com cada próximo; oferecendo, enfim, seu melhor à Vida que
transcende a sua própria vida.
Marcante, no filme:
Perto da morte, o velho abraça,
dentro de uma colcha, a pulsante vida do pombo capturado em sua visita ao
apartamento...
A morte do velho nos é revelada
em espécie de sonho/delírio seu; quando ele pega o casaco e sai de casa,
atrás da mulher ( já morta então)...
“Livre” da morte, a filha de Anne
chega sozinha ao apartamento vazio. Sentada na cadeira de seus pais, ela olha
em volta, e talvez intua que a “fila andou”. A próxima a murchar ali deverá ser
ela.
Exatamente como ficamos sabendo
ao ler “A morte de Ivan Ilitch”, de Tolstói. Ao fim de sua longa agonia, Ilitch
diz para si mesmo:
Marcante, no filme:
sábado, 9 de março de 2013
O Mininstro Joaquim Barbosa e a imprensa (de novo)
A pergunta é a seguinte:
Será que, se fosse na época do "mensalão", a imprensa de direita colocaria, como tem feito, "sob holofotes" o por ela relatado e enfatizado episódio da "irritação" do Ministro Joaquim Barbosa com jornalista de determinado jornal paulista?
Ou passaria rapidamente por cima do assunto, certa de que, naquele momento, não seria de seu interesse qualquer mácula na imagem daquele cujo desempenho durante todo o estrondoso julgamento acabara por ir ao encontro daquilo que tinham por ideal em relação ao delicado assunto?
Já disse nesse blog e volto a repetir que liberdade de imprensa nada tem a ver com "liberdade" para escolher o que dizer - e como dizê-lo e redizê-lo, não dizendo outras tantas coisas, de acordo com os interesses do momento... Isso seria puro casuísmo.
É, senhor Ministro, o senhor não disse nada e parece que já estão por aí com medo de que uma figura forte e humana como a sua - ou como a da Ministra Eliana Calmon - resolva se candidatar à Presidência da República... Talvez seja porque a direita sabe que o senhor se deixa guiar por convicções amadurecidas também no coração. O que, via de regra, não interessa à manutenção do status quo.
Será que, se fosse na época do "mensalão", a imprensa de direita colocaria, como tem feito, "sob holofotes" o por ela relatado e enfatizado episódio da "irritação" do Ministro Joaquim Barbosa com jornalista de determinado jornal paulista?
Ou passaria rapidamente por cima do assunto, certa de que, naquele momento, não seria de seu interesse qualquer mácula na imagem daquele cujo desempenho durante todo o estrondoso julgamento acabara por ir ao encontro daquilo que tinham por ideal em relação ao delicado assunto?
Já disse nesse blog e volto a repetir que liberdade de imprensa nada tem a ver com "liberdade" para escolher o que dizer - e como dizê-lo e redizê-lo, não dizendo outras tantas coisas, de acordo com os interesses do momento... Isso seria puro casuísmo.
É, senhor Ministro, o senhor não disse nada e parece que já estão por aí com medo de que uma figura forte e humana como a sua - ou como a da Ministra Eliana Calmon - resolva se candidatar à Presidência da República... Talvez seja porque a direita sabe que o senhor se deixa guiar por convicções amadurecidas também no coração. O que, via de regra, não interessa à manutenção do status quo.
domingo, 10 de fevereiro de 2013
DJANGO LIVRE
Abominei a bárbara violência no
filme “Bastardos Inglórios”(vide texto no blog). Escrevi, na ocasião, tudo o que
transbordou de minha alma, mas, ainda assim, fiquei com a impressão de não
haver dado conta do recado de Tarantino aos espectadores.
O fato é que “Django Livre”, produzido a partir da
mesmíssima receita, ao me inspirar emoções semelhantes às experimentadas diante
do filme anterior, acabou talvez por me levar a compreender melhor as duas
produções.
Ao assistir a um filme, costumo, naturalmente, me interessar
pelo “inconsciente da obra” – expressão ótima, com a qual me familiarizei anos
atrás lendo “Os Limites da Interpretação”, de Umberto Eco -, permitindo que o
texto penetre nas profundezas do meu próprio inconsciente; detendo-me também nas
aparentemente conscientes intenções do diretor, e em sua possível influência no
inconsciente dos espectadores... E as minhas impressões vão brotando dentro do
peito... Primeiro, apenas emoção, sentimentos, que, aos poucos, vão se
metamorfoseando em palavras...
Mas foi como um tapa na cara que percebi que “Django Livre” não
era mera expressão caricata da catarse ansiada por tantos oprimidos, subjugados
História afora; extrapolando qualquer coisa parecida com aquilo que alguém
possa chamar de justa vingança.
A lógica ali - assustei-me - era bem outra...
Longe de ser uma crítica ao racismo, “Django...” me pareceu,
de supetão, quase racista.
E não por causa de cenas como aquela
em que o personagem de Leonardo Dicaprio apresenta o crânio de um escravo
morto, explicando espécie de determinismo biológico da para ele indiscutível inferioridade
da raça negra, que passaria por uma natural tendência à submissão.
Não, não é essa a passagem mais
perigosa do filme, uma vez que, de modo geral, os espectadores estão, de alguma
forma, preparados para se depararem com qualquer tipo de personagem...
E uma coisa é uma obra ter personagens racistas, que defendam teses racistas; outra, é ser ela mesma, em essência, racista, ou... quase racista.
A verdade terrível é que o filme de Tarantino é quase
racista no sentido em que pode diminuir a capacidade de empatia de cada
espectador – branco ou negro – com o histórico sofrimento da raça negra.
Simplesmente porque “Django..”, em cada uma de suas cenas, é claro testemunho do
desprezo pela humanidade como um todo, que nos surge como conjunto de seres –
todos eles - abjetos, capazes de qualquer coisa em nome de seu interesse do
momento.
Dessa forma, é de maneira sutil que, dentro do espectador
menos atento, pode crescer a perigosa sensação/ideia de que os negros viveram
uma mera fatalidade, ou algo assim, sufocando, no imaginário social,
automaticamente, a ideia – à qual tantos já resistem - da existência dos
históricos culpados da escravidão. É de maneira sutil e perigosa que os espectadores
mais ingênuos podem ser tomados pela certeza de que, se os negros tivessem tido
alguma chance, seriam tão perversos e frios quanto quaisquer sanguinários
capatazes ou senhores de escravos...
Afinal, essa é a mensagem que nos chega todas as vezes em
que, em “Django Livre”, a palavra final fica a cargo dos personagens negros...
Pois não foi ao próprio Django que coube a decisão de deixar ser comido por cães
raivosos o escravo fugitivo? Como ele aprendeu rápido a passar por cima de
quaisquer de seus escrúpulos!, parecendo haver nascido para banhar-se em poças
de sangue... E não nos esqueçamos da Hilde tapando divertidamente(?) os ouvidos
enquanto assistia à explosão da “casa grande”, ou do velho escravo a entregar
seus irmãos ao patrão...
Enfim, a verdade talvez seja que “Django...” só não pode ser acusado
de completamente racista, porque sua lógica maior parece ser, ironicamente, a
da igualdade... A da certeza, inclusive, de que, sentados diante da tela,
sedentos de sangue, e/ou sequiosos de se libertarem de sua dívida histórica,
estão muitos exemplares da raça que Tarantino parece realmente desprezar: a
raça humana.
E uma coisa é uma obra ter personagens racistas, que defendam teses racistas; outra, é ser ela mesma, em essência, racista, ou... quase racista.
segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013
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