E o "CINEMA E LETRAS: IMPRESSÕES" completou dois anos!!!
Muito obrigada, queridos leitores, pelo carinho e permanente interesse por aquilo que escrevo!
Prometo, em breve, voltar a escrever com mais frequência. Encaminhar o novo romance ( "A VISITA" ) e ser avó são as atividades que, nos últimos meses, têm ocupado quase todo o meu tempo.
A verdade é que tenho lido pouco e ido menos ainda ao cinema...
De qualquer forma, num esforço de reorganização, comecei a ler "A Mosca Azul - reflexão sobre o poder", de Frei Betto.
segunda-feira, 30 de maio de 2011
domingo, 24 de abril de 2011
LIBERDADE DE EXPRESSÃO ( ? )
Nada mais flagrante da ideologia de um jornal do que depararmos com um seu encarte sobre debates havidos, entre alguns de seus colaboradores contumazes, em torno da muito falada liberdade de expressão, tendo como patrocinadora nada mais, nada menos do que a maior indústria de cigarros do país.
Para bom entendedor ...
E eu, que nem sempre compreendi a evidência de certas “sutilezas” e que até hoje capto apenas(?) o espírito de certas coisas, gosto de escrever para aqueles que estão a meio caminho da consciência, cada vez menos vulneráveis às ideias do poder...
A eles, como sempre, dedico minhas reflexões de hoje:
1) O autor do livro “O Estado babá...” também participou de tais discussões... Não lhe parece fácil criticar-se o Estado babá vivendo-se em um país antigo - Inglaterra, com alto nível de Educação e respeitada TV pública?
Realmente, onde a educação, a cultura e a saúde, além da satisfação de outras necessidades básicas, estejam ao alcance de todos, a crítica a qualquer restrição à liberdade individual de escolha pode ser apropriada. Afinal, espera-se que nesses países estejam todos, pelo menos, quase em igualdade de condições.
Aqui, no entanto, onde à maioria é reservado apenas o direito de trabalhar pensando no alimento a ser consumido na próxima refeição... Onde a Educação e a Cultura estão muito distantes de atingirem o objetivo ínfimo de esclarecerem nossos “menores” e “maiores” cidadãos quanto a deverem acreditar em si mesmos e naquilo que sentem no fundo de suas almas - de onde poderia vir qualquer senso crítico... Bem, aqui, se não tivermos algum cuidado por parte do Estado, essas pessoas ficarão mesmo é à mercê inclusive de sociopatas desejantes de lucro ilimitado, e do que quer que seja dito por qualquer propaganda “bem” bolada...
Em algum lugar li declaração da professora Ângela Kretschmann, segundo a qual o acesso a conteúdos é fundamental para que as pessoas se sintam partes de uma civilização, “que se comunica e dialoga em uma linguagem que, se não for acessível, significa a exclusão”...
A revolta de Jirau, como definiu o procurador do trabalho no Rio Cássio Casagrande, em recente artigo publicado pelo jornal O Globo, “em sua força bruta e chocante, também nos faz pensar como ainda estamos longe do Primeiro Mundo...”
O que você infere disso?
Eu infiro que, em um país de excluídos – muitas vezes infantilizados pela insegurança resultante dessa condição, o mínimo que o Estado pode fazer, enquanto reúne forças para as providências necessárias a uma real e humana distribuição de renda e de direitos – inclusive o da total independência associada à maioridade -, é tentar frear, através de leis e cuidados, aqueles que, sem qualquer escrúpulo, só pensem em extrair lucro de nossa frágil população...
Mão de obra barata, quase escrava em algumas situações, de um lado, é igual a lucro, lucro, lucro... E, de outro lado, muito mais lucro, ao atingirem por campanhas publicitárias, diretas e indiretas (muitas vezes embutidas, por exemplo, em uma entrevista em programas ou jornais televisivos ), nosso povo, em termos Históricos ainda criança, levando-o ao consumo de coisas legais e ilegais – não raro em função justamente da frustração disso tudo resultante, e à custa da própria saúde e das finanças de suas famílias.
2) Li, em algum lugar, que o jornalista Reinaldo Azevedo teria dito que a “sorte da liberdade de expressão depende da existência do patrocínio, de empresas que não dependam tão umbilicalmente do Estado”...
Empresas como a Souza Cruz, por exemplo?
Vejam o texto publicitário, fechando o citado caderno especial com o conteúdo dos debates em torno da dita “LIBERDADE”:
“Entre todos os valores que existem, um é inegociável: LIBERDADE
A Souza Cruz acredita na liberdade de expressão, como fundamento essencial da livre-concorrência entre as empresas que trabalham com produtos legais, e na liberdade de seus consumidores adultos para fazer suas escolhas livremente. Uma grande empresa não é só medida por seus números, mas também por seus ideais. Valorizar e praticar princípios como livre-iniciativa, livre-concorrência, livre-arbítrio, livre-expressão é o que faz uma empresa ser grande. Não importa o tamanho que tenha. É nisso que acreditamos. É isso que fazemos há 107 anos.”
Ora, ora... Se um bebê crescido sem ouvir qualquer palavra jamais aprenderia a falar, imagino que não possamos considerar “adultos”, em face de mensagens sofisticadamente urdidas, qualquer de nossos culturalmente “excluídos” sexagenários...
Depois, que liberdade pode haver, por exemplo, no gesto da dona de casa humilde que compra um monte de cubinhos de caldo de carne, após assistir, em um programa de televisão repleto de gente bonita e sadia, a execução de uma receita utilizando-se temperos à base de glutamato monossódico? Temperos esses, diga-se de passagem, provavelmente jamais usados por qualquer um dos magros, esclarecidos e elegantes anunciantes do produto...
Que liberdade no gesto daqueles que vimos, em nosso país, antes das restrições às propagandas de cigarros, iniciarem-se no vício movidos pelas imagens de sucesso, liberdade, força e alegria insufladas em seus inconscientes pelas imagens veiculadas através do único instrumento de distração de que dispunham então ( sem falar que campanhas publicitárias atingem toda a população, independente de sua faixa etária )?
Não confundamos liberdade PARA os interesses comerciais, com liberdade em seu sentido amplo, humano, condição primeira a ser desejada por todo e qualquer homem...
Não estaríamos hoje vendo as restrições à venda de antibióticos em nossas farmácias justamente por conta da medicalização que vimos vivendo? A propaganda atingindo inclusive nossos médicos, levando-os(?) a receitarem remédios da moda, a resultar(?) na infeliz conclusão dos pacientes de que medicar-se sozinho não poderia ser muito difícil???
3) Ouço dizer que, hoje, a direita defende a liberdade, enquanto a esquerda preocupa-se com o fim das desigualdades... Que bobagem!
A direita parece defender, sim, hoje, como sempre, a liberdade, mas apenas para suas próprias ações e fins lucrativos, ainda que à custa da saúde do povo. Quanto à preocupação das esquerdas – e vamos parar com esse negócio de associar “esquerdas” com rançosos comunismos - com o fim das desigualdades, ela não exclui o interesse relativo à liberdade, uma vez que o sentir-se "igual" é justamente o suporte necessário à conquista de qualquer liberdade, da capacidade para qualquer decisão autônoma e não impulsionada pela ideologia dominante.
Mas voltemos ao texto publicitário acima citado: ao frisar ser produtora de algo “legal”, a empresa produtora de cigarros parece querer utilizar em seu benefício um dos argumentos utilizados por alguns daqueles que defendem a legalização de qualquer outra droga, que é justamente a questão da liberdade de cada adulto escolher o que queira para si mesmo. Pois, de seu lado, utilizam como argumento, os defensores do Estado de direito a reivindicarem igualdade de condições – legalização - para a produção, venda e consumo de qualquer droga, o fato de ser “legal” o uso do sabidamente nocivo tabaco...
E os publicitários contratados pela Sousa Cruz parecem querer associar a tão estimada liberdade de expressão à liberdade de propagandear-se à vontade o consumo de seus produtos... Se antes víamos alpinistas, desportistas, garanhões soltando suas baforadas em cada colorido e belo filme publicitário de cigarros, agora pode ser que vejamos a polêmica e muito valorizada liberdade de expressão como sinônimo do direito não só de fumar, mas também do direito de divulgar o fumo omitindo-se os mais do que conhecidos malefícios por ele trazidos ao fumante e seus vizinhos...
Ora, ora, ora... Liberdade de expressão é uma coisa, liberdade de manipulação é outra muito diferente.
Em um país no qual as pessoas sequer podem usufruir o direito de ir e vir, por não terem como pagar o transporte, tendo de permanecer diante da televisão em seus poucos momentos de lazer, a propaganda pode ser arma muito perigosa... Vide o endividamento da população com empresas fornecedoras de empréstimos, após ser seduzida por carismáticos artistas a lhe dizerem como ali o dinheiro seria “fácil, fácil, fácil”...
A verdade é que o Estado que não consegue permitir que grande parte de seus cidadãos sejam pais e mães maduros e presentes para seus filhos – incapazes que são muitas vezes de cuidar até de si mesmos - tem mesmo obrigação de se transformar em um Estado-babá.
Quanto a ser “legal”, qualquer droga dessas terríveis que há por aí, ao ser legalizada, jamais tornar-se-ia legal no sentido de bacana, boa, respeitável, digna de belos e bem produzidos anúncios nos maiores canais de comunicação... Seria apenas legal no sentido de “sob controle” da sociedade... Sem falar que, ao contrário do que parece pleitear subliminarmente a Souza Cruz – liberdade de expressão para divulgar amplamente os seus cigarros? -, as drogas outras, após sua possível legalização, ao invés de terem seu consumo incentivado, contariam é com um especial programa educativo, propaganda contra mesmo; educação no sentido de dar-se noção, principalmente aos mais jovens, dos diferentes significados possíveis ao signo “legal”, dentre os quais sem dúvida prevalece o “controlado”.
4) Enfim, diria aos empresários que desejem total, ampla e irrestrita liberdade para dizerem o que quiserem e como quiserem sobre seus produtos, que invistam, nas próximas décadas, em Educação; que se disponham a ganhar menos; que doem parte de seus lucros; que se disponham a pagar mais impostos, inclusive relativos a heranças; que trabalhem em favor da Reforma Agrária... Assim, diante de um povo mais igual e fortalecido, diante de adultos que não sejam analfabetos funcionais, facilmente manipuláveis e sempre correndo o risco de pegar o ônibus errado, talvez possam dispor de sua propagandas como queiram...
Enquanto isso, espero que cada vez mais se vejam obrigados a aceitar as regulamentações do Estado-babá de um povo que, ainda quando intui que algo está errado, por não confiar em si mesmo, vítima que é da ideologia dominante, fica vulnerável aos apelos da propaganda e consome sem escolher... Muitas vezes, inclusive, sem poder.
( Depois, certamente é muito mais compreensível que qualquer Estado seja babá de seu povo do que de grandes empresários e banqueiros. )
De qualquer forma, depois de tal exercício, talvez outros valores pudessem ser por tais empresários conquistados, levando-os à consciência de que LIBERDADE é muito mais do que lucrar sem limite, podendo ser justamente soltar-se da obrigação de acumular sem parar.
Obs. 1) Em “Eu matei Sherazade...”, a escritora árabe Joumana Haddad, em um de seus desabafos, deixa claro o quanto muita liberdade dada à publicidade pode infiltrar valores na população, cerceando a liberdade de existir e de se conhecer dos indivíduos – lá como aqui:
“Eu matei Sherazade com as mãos de toda adolescente que morre de fome por ter sofrido uma lavagem cerebral que a levou a acreditar que os homens vão gostar dela em pele e osso.” ( embora, eu diria, alguns, sob o efeito das mesmas influências, cheguem a acreditar que gostem )
“Eu matei Sherazade com as mãos de toda boneca Barbie que poluiu a cabeça de todas as menininhas de todas as cidades do mundo.”
2) Uma contradição do nosso mundo “fetichizado”, no qual tudo se transforma em objeto a ser vendido, é que, de uma ou outra maneira, alguns daqueles que com lucidez o atacam acabam sendo divulgados por vários canais... Vejam outro trecho desse livro:
“Na verdade, foram-nos dadas unhas por uma razão: para diferenciar, para cavar mais fundo, para rasgar a pele generalizadora, sensacionalista, e estender a mão para o que está além da superfície brilhante...
Pois os véus existem em muitos modelos e texturas: há o véu do repúdio; o véu da ilusão; o véu da mensagem política tendenciosa; o véu da visão e da extrapolação distorcidas; o véu da apreensão e do medo; o véu do julgamento tacanho; e, o mais perigoso de todos, o véu do símbolo falso, fabricado pela mídia...”
Para bom entendedor ...
E eu, que nem sempre compreendi a evidência de certas “sutilezas” e que até hoje capto apenas(?) o espírito de certas coisas, gosto de escrever para aqueles que estão a meio caminho da consciência, cada vez menos vulneráveis às ideias do poder...
A eles, como sempre, dedico minhas reflexões de hoje:
1) O autor do livro “O Estado babá...” também participou de tais discussões... Não lhe parece fácil criticar-se o Estado babá vivendo-se em um país antigo - Inglaterra, com alto nível de Educação e respeitada TV pública?
Realmente, onde a educação, a cultura e a saúde, além da satisfação de outras necessidades básicas, estejam ao alcance de todos, a crítica a qualquer restrição à liberdade individual de escolha pode ser apropriada. Afinal, espera-se que nesses países estejam todos, pelo menos, quase em igualdade de condições.
Aqui, no entanto, onde à maioria é reservado apenas o direito de trabalhar pensando no alimento a ser consumido na próxima refeição... Onde a Educação e a Cultura estão muito distantes de atingirem o objetivo ínfimo de esclarecerem nossos “menores” e “maiores” cidadãos quanto a deverem acreditar em si mesmos e naquilo que sentem no fundo de suas almas - de onde poderia vir qualquer senso crítico... Bem, aqui, se não tivermos algum cuidado por parte do Estado, essas pessoas ficarão mesmo é à mercê inclusive de sociopatas desejantes de lucro ilimitado, e do que quer que seja dito por qualquer propaganda “bem” bolada...
Em algum lugar li declaração da professora Ângela Kretschmann, segundo a qual o acesso a conteúdos é fundamental para que as pessoas se sintam partes de uma civilização, “que se comunica e dialoga em uma linguagem que, se não for acessível, significa a exclusão”...
A revolta de Jirau, como definiu o procurador do trabalho no Rio Cássio Casagrande, em recente artigo publicado pelo jornal O Globo, “em sua força bruta e chocante, também nos faz pensar como ainda estamos longe do Primeiro Mundo...”
O que você infere disso?
Eu infiro que, em um país de excluídos – muitas vezes infantilizados pela insegurança resultante dessa condição, o mínimo que o Estado pode fazer, enquanto reúne forças para as providências necessárias a uma real e humana distribuição de renda e de direitos – inclusive o da total independência associada à maioridade -, é tentar frear, através de leis e cuidados, aqueles que, sem qualquer escrúpulo, só pensem em extrair lucro de nossa frágil população...
Mão de obra barata, quase escrava em algumas situações, de um lado, é igual a lucro, lucro, lucro... E, de outro lado, muito mais lucro, ao atingirem por campanhas publicitárias, diretas e indiretas (muitas vezes embutidas, por exemplo, em uma entrevista em programas ou jornais televisivos ), nosso povo, em termos Históricos ainda criança, levando-o ao consumo de coisas legais e ilegais – não raro em função justamente da frustração disso tudo resultante, e à custa da própria saúde e das finanças de suas famílias.
2) Li, em algum lugar, que o jornalista Reinaldo Azevedo teria dito que a “sorte da liberdade de expressão depende da existência do patrocínio, de empresas que não dependam tão umbilicalmente do Estado”...
Empresas como a Souza Cruz, por exemplo?
Vejam o texto publicitário, fechando o citado caderno especial com o conteúdo dos debates em torno da dita “LIBERDADE”:
“Entre todos os valores que existem, um é inegociável: LIBERDADE
A Souza Cruz acredita na liberdade de expressão, como fundamento essencial da livre-concorrência entre as empresas que trabalham com produtos legais, e na liberdade de seus consumidores adultos para fazer suas escolhas livremente. Uma grande empresa não é só medida por seus números, mas também por seus ideais. Valorizar e praticar princípios como livre-iniciativa, livre-concorrência, livre-arbítrio, livre-expressão é o que faz uma empresa ser grande. Não importa o tamanho que tenha. É nisso que acreditamos. É isso que fazemos há 107 anos.”
Ora, ora... Se um bebê crescido sem ouvir qualquer palavra jamais aprenderia a falar, imagino que não possamos considerar “adultos”, em face de mensagens sofisticadamente urdidas, qualquer de nossos culturalmente “excluídos” sexagenários...
Depois, que liberdade pode haver, por exemplo, no gesto da dona de casa humilde que compra um monte de cubinhos de caldo de carne, após assistir, em um programa de televisão repleto de gente bonita e sadia, a execução de uma receita utilizando-se temperos à base de glutamato monossódico? Temperos esses, diga-se de passagem, provavelmente jamais usados por qualquer um dos magros, esclarecidos e elegantes anunciantes do produto...
Que liberdade no gesto daqueles que vimos, em nosso país, antes das restrições às propagandas de cigarros, iniciarem-se no vício movidos pelas imagens de sucesso, liberdade, força e alegria insufladas em seus inconscientes pelas imagens veiculadas através do único instrumento de distração de que dispunham então ( sem falar que campanhas publicitárias atingem toda a população, independente de sua faixa etária )?
Não confundamos liberdade PARA os interesses comerciais, com liberdade em seu sentido amplo, humano, condição primeira a ser desejada por todo e qualquer homem...
Não estaríamos hoje vendo as restrições à venda de antibióticos em nossas farmácias justamente por conta da medicalização que vimos vivendo? A propaganda atingindo inclusive nossos médicos, levando-os(?) a receitarem remédios da moda, a resultar(?) na infeliz conclusão dos pacientes de que medicar-se sozinho não poderia ser muito difícil???
3) Ouço dizer que, hoje, a direita defende a liberdade, enquanto a esquerda preocupa-se com o fim das desigualdades... Que bobagem!
A direita parece defender, sim, hoje, como sempre, a liberdade, mas apenas para suas próprias ações e fins lucrativos, ainda que à custa da saúde do povo. Quanto à preocupação das esquerdas – e vamos parar com esse negócio de associar “esquerdas” com rançosos comunismos - com o fim das desigualdades, ela não exclui o interesse relativo à liberdade, uma vez que o sentir-se "igual" é justamente o suporte necessário à conquista de qualquer liberdade, da capacidade para qualquer decisão autônoma e não impulsionada pela ideologia dominante.
Mas voltemos ao texto publicitário acima citado: ao frisar ser produtora de algo “legal”, a empresa produtora de cigarros parece querer utilizar em seu benefício um dos argumentos utilizados por alguns daqueles que defendem a legalização de qualquer outra droga, que é justamente a questão da liberdade de cada adulto escolher o que queira para si mesmo. Pois, de seu lado, utilizam como argumento, os defensores do Estado de direito a reivindicarem igualdade de condições – legalização - para a produção, venda e consumo de qualquer droga, o fato de ser “legal” o uso do sabidamente nocivo tabaco...
E os publicitários contratados pela Sousa Cruz parecem querer associar a tão estimada liberdade de expressão à liberdade de propagandear-se à vontade o consumo de seus produtos... Se antes víamos alpinistas, desportistas, garanhões soltando suas baforadas em cada colorido e belo filme publicitário de cigarros, agora pode ser que vejamos a polêmica e muito valorizada liberdade de expressão como sinônimo do direito não só de fumar, mas também do direito de divulgar o fumo omitindo-se os mais do que conhecidos malefícios por ele trazidos ao fumante e seus vizinhos...
Ora, ora, ora... Liberdade de expressão é uma coisa, liberdade de manipulação é outra muito diferente.
Em um país no qual as pessoas sequer podem usufruir o direito de ir e vir, por não terem como pagar o transporte, tendo de permanecer diante da televisão em seus poucos momentos de lazer, a propaganda pode ser arma muito perigosa... Vide o endividamento da população com empresas fornecedoras de empréstimos, após ser seduzida por carismáticos artistas a lhe dizerem como ali o dinheiro seria “fácil, fácil, fácil”...
A verdade é que o Estado que não consegue permitir que grande parte de seus cidadãos sejam pais e mães maduros e presentes para seus filhos – incapazes que são muitas vezes de cuidar até de si mesmos - tem mesmo obrigação de se transformar em um Estado-babá.
Quanto a ser “legal”, qualquer droga dessas terríveis que há por aí, ao ser legalizada, jamais tornar-se-ia legal no sentido de bacana, boa, respeitável, digna de belos e bem produzidos anúncios nos maiores canais de comunicação... Seria apenas legal no sentido de “sob controle” da sociedade... Sem falar que, ao contrário do que parece pleitear subliminarmente a Souza Cruz – liberdade de expressão para divulgar amplamente os seus cigarros? -, as drogas outras, após sua possível legalização, ao invés de terem seu consumo incentivado, contariam é com um especial programa educativo, propaganda contra mesmo; educação no sentido de dar-se noção, principalmente aos mais jovens, dos diferentes significados possíveis ao signo “legal”, dentre os quais sem dúvida prevalece o “controlado”.
4) Enfim, diria aos empresários que desejem total, ampla e irrestrita liberdade para dizerem o que quiserem e como quiserem sobre seus produtos, que invistam, nas próximas décadas, em Educação; que se disponham a ganhar menos; que doem parte de seus lucros; que se disponham a pagar mais impostos, inclusive relativos a heranças; que trabalhem em favor da Reforma Agrária... Assim, diante de um povo mais igual e fortalecido, diante de adultos que não sejam analfabetos funcionais, facilmente manipuláveis e sempre correndo o risco de pegar o ônibus errado, talvez possam dispor de sua propagandas como queiram...
Enquanto isso, espero que cada vez mais se vejam obrigados a aceitar as regulamentações do Estado-babá de um povo que, ainda quando intui que algo está errado, por não confiar em si mesmo, vítima que é da ideologia dominante, fica vulnerável aos apelos da propaganda e consome sem escolher... Muitas vezes, inclusive, sem poder.
( Depois, certamente é muito mais compreensível que qualquer Estado seja babá de seu povo do que de grandes empresários e banqueiros. )
De qualquer forma, depois de tal exercício, talvez outros valores pudessem ser por tais empresários conquistados, levando-os à consciência de que LIBERDADE é muito mais do que lucrar sem limite, podendo ser justamente soltar-se da obrigação de acumular sem parar.
Obs. 1) Em “Eu matei Sherazade...”, a escritora árabe Joumana Haddad, em um de seus desabafos, deixa claro o quanto muita liberdade dada à publicidade pode infiltrar valores na população, cerceando a liberdade de existir e de se conhecer dos indivíduos – lá como aqui:
“Eu matei Sherazade com as mãos de toda adolescente que morre de fome por ter sofrido uma lavagem cerebral que a levou a acreditar que os homens vão gostar dela em pele e osso.” ( embora, eu diria, alguns, sob o efeito das mesmas influências, cheguem a acreditar que gostem )
“Eu matei Sherazade com as mãos de toda boneca Barbie que poluiu a cabeça de todas as menininhas de todas as cidades do mundo.”
2) Uma contradição do nosso mundo “fetichizado”, no qual tudo se transforma em objeto a ser vendido, é que, de uma ou outra maneira, alguns daqueles que com lucidez o atacam acabam sendo divulgados por vários canais... Vejam outro trecho desse livro:
“Na verdade, foram-nos dadas unhas por uma razão: para diferenciar, para cavar mais fundo, para rasgar a pele generalizadora, sensacionalista, e estender a mão para o que está além da superfície brilhante...
Pois os véus existem em muitos modelos e texturas: há o véu do repúdio; o véu da ilusão; o véu da mensagem política tendenciosa; o véu da visão e da extrapolação distorcidas; o véu da apreensão e do medo; o véu do julgamento tacanho; e, o mais perigoso de todos, o véu do símbolo falso, fabricado pela mídia...”
segunda-feira, 11 de abril de 2011
ORKUT
SÓ PARA LEMBRAR O QUE DESDE SEMPRE - desde os primeiros textos do Cinema e Letras: Impressões - VAI AÍ, AO LADO, EM LETRINHAS AZUIS: NÃO TENHO - nem pretendo ter - PERFIL NO ORKUT OU EM QUALQUER SITE SEMELHANTE.
sexta-feira, 1 de abril de 2011
quarta-feira, 2 de março de 2011
"A VISITA"
"A Visita" é o título do romance que acabo de concluir.
Em breve, mais uma leitura importante à disposição dos bons leitores.
Em breve, mais uma leitura importante à disposição dos bons leitores.
quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011
Depois do carnaval
Depois do carnaval, textos novos para os meus queridos leitores... Enquanto isso, que tal lerem ou relerem alguns dos textos - quase sempre atuais - já publicados?
O romance "A Juíza", também depois do carnaval, volta a ser vendido, aos domingos, na barraquinha dos "Escritores ao ar livro", na praça Getúlio Vargas, Icaraí, Niterói.
O romance "A Juíza", também depois do carnaval, volta a ser vendido, aos domingos, na barraquinha dos "Escritores ao ar livro", na praça Getúlio Vargas, Icaraí, Niterói.
quinta-feira, 6 de janeiro de 2011
POR UM MUNDO MELHOR! SEMPRE
Se procurarem “março/10” no arquivo do blog, verão que, no período, dentre outros, escrevi dois textos ( “Adam Smith e Lula” e “A divisão social do trabalho” ) em torno de texto escrito pelo economista Rodrigo Constantino e publicado então pelo jornal “O Globo”.
Lendo os textos, perceberão que, como sempre, falo diretamente do meu coração, sobre minhas impressões; quase “intuitivamente”, como costuma dizer um bom amigo...
A verdade é que há muito tempo descobri que os mesmos livros, os mesmos pensadores, os mesmos fatos podem ser usados tanto por aqueles que defendam, quanto pelos que condenem uma ideia... Isso, aliado à consciência que tenho do quanto – friso: não creio que seja o caso do articulista em questão – convivemos com “intelectuais” ( estudiosos de resumos de livros, incapazes de formular uma teoria própria? ) que se garantem na ignorância alheia, é o que me faz cada vez mais valorizar o como nosso coração receba qualquer coisa que nos tentem fazer engolir como verdade absoluta...
Bem, o fato é que foi apenas alguns meses depois de escrever tais textos que, lendo “A Corrosão do caráter”, de Richard Sennett, registrei o quanto minha intuição, ao rebater a análise feita por Constantino em relação ao pensamento de Smith, poderia haver sido certeira:
“ ‘A riqueza das nações’ é um livro muito grande, e os proponentes da nova economia da época de Smith tenderam apenas a referir-se a seu início dramático e otimista. À medida que o texto avança, porém, torna-se sombrio; a fábrica de alfinetes vira um lugar mais sinistro. Smith reconhece que a decomposição das tarefas envolvidas na fabricação de alfinetes condenaria os trabalhadores individuais a um dia de um tédio mortal, hora após hora passadas num serviço mesquinho. Em certo ponto, a rotina torna-se autodestrutiva, porque os seres humanos perdem o controle sobre seus próprios esforços; falta de controle sobre o tempo de trabalho significa morte espiritual.
Smith acreditava que o capitalismo de sua época cruzava esse grande abismo; quando declarou que ‘os que trabalham mais obtêm menos’ na nova ordem, pensava mais nesses termos humanos que em salários. Num dos trechos mais sombrios de ‘A riqueza das nações’, ele escreve:
‘No progresso da divisão do trabalho, o emprego da parte muito maior daqueles que vivem do trabalho... passa a limitar-se a umas poucas operações muito simples; frequentemente uma ou duas... O homem que passa a vida realizando umas poucas operações simples... em geral se torna tão estúpido e ignorante quanto é possível tornar-se uma criatura humana.’”
Em 28 de dezembro último, também no jornal “O Globo”, li outro texto de Constantino. Intitulado “A ditadura do politicamente correto”, o artigo acaba fazendo importante divulgação do livro “Contra um mundo melhor”, do filósofo Luiz Felipe Pondé.
Escabreada, por conta de minha experiência anterior com as palavras de Rodrigo Constantino, e não tendo ainda lido qualquer dos textos – publicados pela “Folha” – de Pondé, fiquei curiosa: estaria eu mais uma vez diante de uma pessoal interpretação do economista?
Assim, acabei procurando pelo referido livro, cujo título – intrigante - poderia ser mero jogo de palavras, e, não o encontrando, resolvi dar uma olhada na internet, ver se conseguia ler alguma coisa do filósofo.
Pois dessa vez parece que Constantino apenas abraça as ideias de alguém que realmente com ele tem afinidades...
Sabem?, às vezes tenho a impressão de que há mesmo aqueles intelectuais dispostos a fazerem contorções reflexivas ( como a babá que sacode - ao invés de balançar suavemente - o bebê que resiste ao sono? ), no sentido de atordoar aqueles que precisam de ajuda para não despertarem de uma vez; aqueles que se autoenganam e se esforçam para não compreenderem que toda infelicidade e insatisfação que os habitam se originam mais de sua incapacidade de perceber-se parte do todo social do que do fato de se sentirem ameaçados em seu conforto pelas diferenças – que fazem questão de manter? - que os circundam.
A verdade é que alguns dos artigos que pude ler do filósofo chegam a assustar mais do que qualquer um dos que tenha lido de seu divulgador... De forma bastante clara, em defesa do que seriam os interesses de uma classe média/alta inconsciente e alienada(?), ali podemos encontrar muitas ideias, como as que passo a comentar do texto intitulado “A oligarquia de esquerda”, publicado pela “Folha”:
1) “Mas antes da pergunta ‘o que é justiça social?’, podemos perguntar quem seriam ‘os paladinos da justiça social’. Seria gente honesta? Ou aproveitadores do patrimônio dos outros e da ‘matéria bruta da infelicidade humana’, ansiosos por fazer seus próprios patrimônios à custa do roubo do fruto do trabalho alheio ‘em nome da justiça social’?”
Ora, o raciocínio capitalista que nos faz acreditar que todos estejam, o tempo todo, querendo “lucrar” é justamente aquele que a verdadeira justiça social tenderá a derrubar.
Certamente, Pondé, aqueles que falam e realmente almejam ( os outros simplesmente não são de esquerda, mas de uma espécie de direita disfarçada ) a talvez utópica justiça social estão falando de um ideal a ser perseguido, e, em um ideal, não cabem os possíveis perversos, dispostos a qualquer coisa em nome de qualquer cifra.
Por outro lado, já que o filósofo apenas conjectura, conjecturemos também: todo patrimônio é fruto de trabalho honesto? E a exploração do trabalho humano não seria roubo? Como se constituíram as primeiras propriedades particulares que têm sido transmitidas aos herdeiros, geração após geração?
Sem falar que, sabemos bem, a “matéria bruta da infelicidade humana” potencialmente manipulável não é encontrada apenas dentre a população menos favorecida... Toda a injustiça que nos cerca é evidente sintoma de que toda a sociedade – inclusive os seus membros melhor aquinhoados, acometidos por tantos vícios, doenças e depressões – vai bastante mal, e de que parte dela - sacudida por seus “intelectuais-babás”? - ainda não acordou o suficiente para perceber que “justiça social” é também benefício para seus próprios filhos.
Não apenas porque eles poderão transitar por um mundo mais seguro, mas porque quem insere uma vida digna para seus próximos em sua concepção de mundo desejável automaticamente se vê inserido num sentimento libertador de humanidade, que certamente não vale a pena tentar explicar àqueles que parecem haver escolhido ser tradutores dos agonizantes e mais egoístas valores de nossa sociedade.
2) “Outro filósofo britânico, Locke (século 17), chamava a atenção para o fato de que sem propriedade privada não haveria qualquer liberdade possível no mundo porque liberdade, quando arrancada de sua raiz concreta, a propriedade privada (isto é, o fruto do seu esforço pessoal e livre e que ninguém pode tomar), seria irreal.”
Como imagino ocorra com a maioria dos leitores, não conheço o pensamento de Locke a ponto de poder saber o que quis o filósofo dizer com tais palavras, inclusive porque, como vimos em relação ao pensamento de Smith, pode ser bastante complicado pinçarmos uma frase ou outra de alguém que viveu para pensar e para contradizer a si mesmo sempre que necessário...
Mas quem falou que justiça social implica necessariamente em abolirmos a propriedade privada?
Questionar, no entanto, o acúmulo de riquezas resultante da exploração do trabalho e das fragilidades de outros seres humanos, sim, faz.
Que liberdade seria afinal aquela que vive de escravizar o próximo em múltiplos sentidos? Só pode ela resultar no aprisionamento dos proprietários a suas propriedades; só pode ela resultar na maior infelicidade que pode acometer um ser humano: desumanizar-se ( vide no blog o texto “ O menino do pijama listrado”, em julho/09 ).
E o que me assusta mais ainda é pensar que não seja difícil confundir alguém com textos como os que li de Pondé...
Outro dia presenciei uma conversa na qual duas jovens mulheres diziam a uma terceira que ela, por ter um certo padrão de vida, por gostar de certos confortos, não poderia defender a justiça social como parecia querer fazer... Segundo elas, que pareciam querer calar dentro de si a inquietação provocada pelas palavras da amiga, ser socialista – ou qualquer coisa que o valha – era escolher a pobreza como estilo de vida. E ponto.
Ora, ora, justiça social, sabemos bem, não significa igualarmos todos pelo padrão mais baixo. Justiça social a longo prazo é na verdade garantir a todos direitos não apenas básicos, mas também aqueles de escolhas mais sofisticadas ( vide o pensador indiano Armatia Sen ), como, por exemplo, o consumo de algumas iguarias...
Por outro lado, gostar de conforto e de belas coisas certamente não torna qualquer um de nós mau. A diferença entre as pessoas não se evidencia ao observarmos aquilo de que gostam ou aquilo que usam. Mas aquilo que são capazes de fazer para obterem o que gostariam de possuir ou usufruir. Ou aquilo de que são capazes de abrir mão em nome de abstrações como solidariedade e dignidade...
E consciência.
Em um mundo socialmente justo, Pondé, poderá continuar a haver ricos, até riquíssimos, mas a distribuição de riquezas se dará de maneira humanizada, não havendo lugar para as misérias material e humana que nos cercam...
O caminho? Reforma tributária... Reforma agrária... Reforma política...
Reforma humana.
3) “Engana-se quem acha que propriedade privada seja apenas "sua casa". Não, a primeira propriedade privada que existe é invisível: sua alma, seu espírito, suas ideias. É sobre elas que a oligarquia de esquerda avança a passos largos. Em nome da "justiça social" ela silenciará todos.
Qualquer homem que pense – até o mais rico entre nós, como temos visto acontecer -, que tenha ideias próprias e não apenas de classe; qualquer homem que tenha coragem de ir fundo dentro de si mesmo, descobre-se tão próximo de todo e qualquer outro ser humano que trabalhar pela justiça social pode se tornar a única forma através da qual possa se sentir realmente livre.
Lendo os textos, perceberão que, como sempre, falo diretamente do meu coração, sobre minhas impressões; quase “intuitivamente”, como costuma dizer um bom amigo...
A verdade é que há muito tempo descobri que os mesmos livros, os mesmos pensadores, os mesmos fatos podem ser usados tanto por aqueles que defendam, quanto pelos que condenem uma ideia... Isso, aliado à consciência que tenho do quanto – friso: não creio que seja o caso do articulista em questão – convivemos com “intelectuais” ( estudiosos de resumos de livros, incapazes de formular uma teoria própria? ) que se garantem na ignorância alheia, é o que me faz cada vez mais valorizar o como nosso coração receba qualquer coisa que nos tentem fazer engolir como verdade absoluta...
Bem, o fato é que foi apenas alguns meses depois de escrever tais textos que, lendo “A Corrosão do caráter”, de Richard Sennett, registrei o quanto minha intuição, ao rebater a análise feita por Constantino em relação ao pensamento de Smith, poderia haver sido certeira:
“ ‘A riqueza das nações’ é um livro muito grande, e os proponentes da nova economia da época de Smith tenderam apenas a referir-se a seu início dramático e otimista. À medida que o texto avança, porém, torna-se sombrio; a fábrica de alfinetes vira um lugar mais sinistro. Smith reconhece que a decomposição das tarefas envolvidas na fabricação de alfinetes condenaria os trabalhadores individuais a um dia de um tédio mortal, hora após hora passadas num serviço mesquinho. Em certo ponto, a rotina torna-se autodestrutiva, porque os seres humanos perdem o controle sobre seus próprios esforços; falta de controle sobre o tempo de trabalho significa morte espiritual.
Smith acreditava que o capitalismo de sua época cruzava esse grande abismo; quando declarou que ‘os que trabalham mais obtêm menos’ na nova ordem, pensava mais nesses termos humanos que em salários. Num dos trechos mais sombrios de ‘A riqueza das nações’, ele escreve:
‘No progresso da divisão do trabalho, o emprego da parte muito maior daqueles que vivem do trabalho... passa a limitar-se a umas poucas operações muito simples; frequentemente uma ou duas... O homem que passa a vida realizando umas poucas operações simples... em geral se torna tão estúpido e ignorante quanto é possível tornar-se uma criatura humana.’”
Em 28 de dezembro último, também no jornal “O Globo”, li outro texto de Constantino. Intitulado “A ditadura do politicamente correto”, o artigo acaba fazendo importante divulgação do livro “Contra um mundo melhor”, do filósofo Luiz Felipe Pondé.
Escabreada, por conta de minha experiência anterior com as palavras de Rodrigo Constantino, e não tendo ainda lido qualquer dos textos – publicados pela “Folha” – de Pondé, fiquei curiosa: estaria eu mais uma vez diante de uma pessoal interpretação do economista?
Assim, acabei procurando pelo referido livro, cujo título – intrigante - poderia ser mero jogo de palavras, e, não o encontrando, resolvi dar uma olhada na internet, ver se conseguia ler alguma coisa do filósofo.
Pois dessa vez parece que Constantino apenas abraça as ideias de alguém que realmente com ele tem afinidades...
Sabem?, às vezes tenho a impressão de que há mesmo aqueles intelectuais dispostos a fazerem contorções reflexivas ( como a babá que sacode - ao invés de balançar suavemente - o bebê que resiste ao sono? ), no sentido de atordoar aqueles que precisam de ajuda para não despertarem de uma vez; aqueles que se autoenganam e se esforçam para não compreenderem que toda infelicidade e insatisfação que os habitam se originam mais de sua incapacidade de perceber-se parte do todo social do que do fato de se sentirem ameaçados em seu conforto pelas diferenças – que fazem questão de manter? - que os circundam.
A verdade é que alguns dos artigos que pude ler do filósofo chegam a assustar mais do que qualquer um dos que tenha lido de seu divulgador... De forma bastante clara, em defesa do que seriam os interesses de uma classe média/alta inconsciente e alienada(?), ali podemos encontrar muitas ideias, como as que passo a comentar do texto intitulado “A oligarquia de esquerda”, publicado pela “Folha”:
1) “Mas antes da pergunta ‘o que é justiça social?’, podemos perguntar quem seriam ‘os paladinos da justiça social’. Seria gente honesta? Ou aproveitadores do patrimônio dos outros e da ‘matéria bruta da infelicidade humana’, ansiosos por fazer seus próprios patrimônios à custa do roubo do fruto do trabalho alheio ‘em nome da justiça social’?”
Ora, o raciocínio capitalista que nos faz acreditar que todos estejam, o tempo todo, querendo “lucrar” é justamente aquele que a verdadeira justiça social tenderá a derrubar.
Certamente, Pondé, aqueles que falam e realmente almejam ( os outros simplesmente não são de esquerda, mas de uma espécie de direita disfarçada ) a talvez utópica justiça social estão falando de um ideal a ser perseguido, e, em um ideal, não cabem os possíveis perversos, dispostos a qualquer coisa em nome de qualquer cifra.
Por outro lado, já que o filósofo apenas conjectura, conjecturemos também: todo patrimônio é fruto de trabalho honesto? E a exploração do trabalho humano não seria roubo? Como se constituíram as primeiras propriedades particulares que têm sido transmitidas aos herdeiros, geração após geração?
Sem falar que, sabemos bem, a “matéria bruta da infelicidade humana” potencialmente manipulável não é encontrada apenas dentre a população menos favorecida... Toda a injustiça que nos cerca é evidente sintoma de que toda a sociedade – inclusive os seus membros melhor aquinhoados, acometidos por tantos vícios, doenças e depressões – vai bastante mal, e de que parte dela - sacudida por seus “intelectuais-babás”? - ainda não acordou o suficiente para perceber que “justiça social” é também benefício para seus próprios filhos.
Não apenas porque eles poderão transitar por um mundo mais seguro, mas porque quem insere uma vida digna para seus próximos em sua concepção de mundo desejável automaticamente se vê inserido num sentimento libertador de humanidade, que certamente não vale a pena tentar explicar àqueles que parecem haver escolhido ser tradutores dos agonizantes e mais egoístas valores de nossa sociedade.
2) “Outro filósofo britânico, Locke (século 17), chamava a atenção para o fato de que sem propriedade privada não haveria qualquer liberdade possível no mundo porque liberdade, quando arrancada de sua raiz concreta, a propriedade privada (isto é, o fruto do seu esforço pessoal e livre e que ninguém pode tomar), seria irreal.”
Como imagino ocorra com a maioria dos leitores, não conheço o pensamento de Locke a ponto de poder saber o que quis o filósofo dizer com tais palavras, inclusive porque, como vimos em relação ao pensamento de Smith, pode ser bastante complicado pinçarmos uma frase ou outra de alguém que viveu para pensar e para contradizer a si mesmo sempre que necessário...
Mas quem falou que justiça social implica necessariamente em abolirmos a propriedade privada?
Questionar, no entanto, o acúmulo de riquezas resultante da exploração do trabalho e das fragilidades de outros seres humanos, sim, faz.
Que liberdade seria afinal aquela que vive de escravizar o próximo em múltiplos sentidos? Só pode ela resultar no aprisionamento dos proprietários a suas propriedades; só pode ela resultar na maior infelicidade que pode acometer um ser humano: desumanizar-se ( vide no blog o texto “ O menino do pijama listrado”, em julho/09 ).
E o que me assusta mais ainda é pensar que não seja difícil confundir alguém com textos como os que li de Pondé...
Outro dia presenciei uma conversa na qual duas jovens mulheres diziam a uma terceira que ela, por ter um certo padrão de vida, por gostar de certos confortos, não poderia defender a justiça social como parecia querer fazer... Segundo elas, que pareciam querer calar dentro de si a inquietação provocada pelas palavras da amiga, ser socialista – ou qualquer coisa que o valha – era escolher a pobreza como estilo de vida. E ponto.
Ora, ora, justiça social, sabemos bem, não significa igualarmos todos pelo padrão mais baixo. Justiça social a longo prazo é na verdade garantir a todos direitos não apenas básicos, mas também aqueles de escolhas mais sofisticadas ( vide o pensador indiano Armatia Sen ), como, por exemplo, o consumo de algumas iguarias...
Por outro lado, gostar de conforto e de belas coisas certamente não torna qualquer um de nós mau. A diferença entre as pessoas não se evidencia ao observarmos aquilo de que gostam ou aquilo que usam. Mas aquilo que são capazes de fazer para obterem o que gostariam de possuir ou usufruir. Ou aquilo de que são capazes de abrir mão em nome de abstrações como solidariedade e dignidade...
E consciência.
Em um mundo socialmente justo, Pondé, poderá continuar a haver ricos, até riquíssimos, mas a distribuição de riquezas se dará de maneira humanizada, não havendo lugar para as misérias material e humana que nos cercam...
O caminho? Reforma tributária... Reforma agrária... Reforma política...
Reforma humana.
3) “Engana-se quem acha que propriedade privada seja apenas "sua casa". Não, a primeira propriedade privada que existe é invisível: sua alma, seu espírito, suas ideias. É sobre elas que a oligarquia de esquerda avança a passos largos. Em nome da "justiça social" ela silenciará todos.
Qualquer homem que pense – até o mais rico entre nós, como temos visto acontecer -, que tenha ideias próprias e não apenas de classe; qualquer homem que tenha coragem de ir fundo dentro de si mesmo, descobre-se tão próximo de todo e qualquer outro ser humano que trabalhar pela justiça social pode se tornar a única forma através da qual possa se sentir realmente livre.
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