Entendo a defesa da descriminalização do uso de drogas como uma manifestação da consciência crescente de que este é um problema da esfera da Saúde Pública. E essa consciência é indispensável.
Mas não consigo compreender que esse movimento não seja acompanhado de ampla discussão sobre a legalização e regulamentação – produção, venda e uso ( discussão inclusive sobre como estão sendo implementadas as políticas internacionais de combate ao tráfico ) dessas substâncias, cujo comércio ilegal tantos prejuízos tem trazido à sociedade como um todo.
Já tendo tratado desse assunto nesse blog, reproduzo trecho de texto anteriormente aqui publicado:
“A sociedade é um todo de partes articuladas entre si. Não existe solução satisfatória para qualquer problema atual que não passe pela reestruturação desse todo. Assim, no meu entender, soluções para questões como drogas e violência só serão delineadas de fato quando dermos prioridade à discussão sobre os valores que temos abraçado e que perpassam a vida e as ações de cada um de nós.
Enquanto jovens das classes média e alta estiverem à deriva ( muitas vezes desconfiados daquilo que seus próprios pais defendem através de suas posturas diante da vida, incluindo-se aí até mesmo o uso de algum tipo de droga ), com um grande vazio nunca preenchido por todas as coisas que o dinheiro possa comprar, sempre haverá mercado para quaisquer drogas, legais ou ilegais...
Enquanto a miséria jogar outra parcela de nossos jovens no vício e nas mãos dos empresários do crime, a violência só aumentará.”
Por enquanto, insisto que precisamos ampliar a discussão sobre o assunto. E gostaria de destacar as três principais razões que identifico para que pais, mães, médicos, educadores, intelectuais, psicólogos, políticos, juristas e seres humanos de modo geral discutam o retumbante fracasso da política segundo a qual o assunto vem sendo tratado e que a simples descriminalização do uso de drogas, a médio e longo prazos, talvez possa exacerbar.
A primeira dessas razões é que não podemos deixar de pensar na possibilidade de que a simples descriminalização do uso de drogas possa vir a tornar-se medida de caráter elitista, uma vez que, de certa forma, seus maiores beneficiados acabariam sendo os dependentes das classes mais abastadas. ( Vide em "Acionistas do Nada", do delegado Orlando Zaccone, quem seriam os escolhidos "para pagar o pato" no que se refira ao assunto drogas. )
A segunda é ser de difícil compreensão o fato de uma sociedade poder conviver passivamente com a ideia de que seus jovens mantenham relações comerciais com a criminalidade. Isso não cheiraria a hipocrisia?
E a terceira razão, talvez a mais séria, seria a grande probabilidade de, a médio prazo, podermos vir a verificar um aumento significativo da dependência química ( o uso desmedido do álcool aí incluído ), além dos episódios de violência, desumanidade e falta de limites envolvendo jovens das classes mais altas. Simplesmente porque tal situação – a descriminalização do uso pura e simples -, ao, de certa forma, permitir aos jovens o trânsito livre pela ilegalidade, colocar-se-ia contra qualquer princípio educativo. E essa contradição poderia favorecer a estruturação em nossos jovens de personalidades nada sadias, na medida em que os limites entre o legal e o ilegal, entre o que não deva ser punido e o que deva ser punido não ficariam muito claros. Inclusive podendo favorecer o fortalecimento do sentimento fascista – infelizmente já presente em alguns grupos de jovens - da superioridade em relação aos mais humildes.
São ou não são boas razões para no mínimo começarmos a pensar?
Lembrando sempre de que “legalizar” não tem qualquer relação com “aprovar” e muito menos com “legal” no sentido de bom, estando, no caso em questão, muito mais para a busca de um Estado de Direito.
Enfim, gostaria de concluir, remetendo-me novamente ao texto anterior:
“Apenas no dia em que a sociedade como um todo começar a rever seus valores, cada uma de nossas ações será humanizada e naturalmente as condições de vida dos filhos das classes mais e menos privilegiadas se beneficiarão disso. E tenho certeza de que, então, o uso de qualquer droga diminuirá muito.”
domingo, 7 de fevereiro de 2010
quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010
"UM ÓTIMO FILME RUIM"
A melhor crítica possível ao filme "Avatar"-3D está na coluna de hoje, em O Globo, da jornalista Cora Rónai.
Assino embaixo.
Assino embaixo.
terça-feira, 2 de fevereiro de 2010
Sheila Maria Madastavicius
Se você veio, através do meu nome, do Google até aqui, seja mais do que bem-vindo. Aliás, meus leitores são sempre muitíssimo bem-vindos.
Clique no "Arquivo do Blog" para consultar artigos mais antigos ou atuais, e leia-os com o coração.
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O FIM DA ESCURIDÃO
A respeito de “O fim da escuridão”, ouvi pessoas comentando que o fato de ser grande demais a sujeira ali mostrada, a envolver muitos setores da sociedade humana, poderia levar alguns a perceberem o filme como surreal e a denúncia de “conspiração” através dele veiculada, como simples paranoia...
Limito-me a remeter o espectador - que ainda não se tenha deixado anestesiar e se indigna diante da deterioração dos melhores valores humanos - ao DVD “Cidade do Silêncio”.
Talvez de forma mais plausível, esse filme trata do mesmo tema abordado por “O fim...”: aqueles abusos muito bem denunciados pelo documentário ( já citado nesse blog ) “The Corporation”. Documentário que, por sua vez e no mínimo, leva qualquer um a refletir um pouco mais antes de, comodamente - para não precisar se posicionar? -, recusar sua atenção a alguma história.
Limito-me a remeter o espectador - que ainda não se tenha deixado anestesiar e se indigna diante da deterioração dos melhores valores humanos - ao DVD “Cidade do Silêncio”.
Talvez de forma mais plausível, esse filme trata do mesmo tema abordado por “O fim...”: aqueles abusos muito bem denunciados pelo documentário ( já citado nesse blog ) “The Corporation”. Documentário que, por sua vez e no mínimo, leva qualquer um a refletir um pouco mais antes de, comodamente - para não precisar se posicionar? -, recusar sua atenção a alguma história.
sábado, 30 de janeiro de 2010
Nova Iorque, eu te amo
Na minha opinião e como era mesmo de se esperar ( tendo-se em vista a proposta mesma do filme ), qualquer esforço maior no sentido de sair de casa para assistir a "Nova Iorque, eu te amo" pode levar ao arrependimento aqueles que gostam de profundidade...
Melhor esperar pelo DVD.
Melhor esperar pelo DVD.
terça-feira, 29 de dezembro de 2009
"A Juíza"
Em “A Juíza”, romance de Sheila Maria Madastavicius, dentre vários temas abordados, como o assédio moral dentro de uma instituição pública, você pode ler sobre a sindicância instaurada para apurar comportamento supostamente indevido da servidora Sílvia ( uma das principais personagens dessa obra de ficção que anda emocionando muita gente ), da qual resultou uma advertência por "haver ido embora do trabalho sem autorização da chefia imediata".
A barraquinha dos "Escritores ao Ar Livro" voltará à pracinha a partir do primeiro domingo do mês de março.
Mas você continua podendo adquirir "A Juíza", por exemplo, na livraria "Prêmio", em Icaraí, Niterói; ou na livraria "Leonardo Da Vinci", no Centro do Rio, além de pelo site da editora Nitpress.
A barraquinha dos "Escritores ao Ar Livro" voltará à pracinha a partir do primeiro domingo do mês de março.
Mas você continua podendo adquirir "A Juíza", por exemplo, na livraria "Prêmio", em Icaraí, Niterói; ou na livraria "Leonardo Da Vinci", no Centro do Rio, além de pelo site da editora Nitpress.
quarta-feira, 2 de dezembro de 2009
Lavoura Arcaica... ainda
Estava pensando ainda sobre “Lavoura Arcaica... “
Um colega de leitura disse perceber, no filme, um gesto incestuoso no abraço entre a mãe e André...
É possível que ele não o tenha inventado...
A dúvida permanece, no entanto, colocada da seguinte maneira: o toque mais sensual do que maternal teria de fato partido da mãe ou ali estava sendo retratada a forma através da qual André o recebia?
Por outro lado, parece-nos que ele era o filho preferido por ela. E isso, até onde podemos entender, poderia ser suficiente, por várias razões – inclusive pelo sentimento de culpa -, para desencadear as fantasias do menino, arremessando-o de maneira especialmente forte no caminho que acabamos de vê-lo percorrer...
Complexo de Édipo?
Bem, se, como suspeitáramos de início, essa for mesmo a pista para uma interpretação mais profunda de“Lavoura Arcaica”, talvez possamos até imaginar que toda essa tragédia não passe de caricatura fantasiosa do pavor, do medo, da "aversão" a si mesmo e à própria mãe e ao pai... possivelmente vividos por muitos meninos junto com a "culpa" ante suas primeiras, segundas e terceiras dúvidas, sensações, percepções, emoções, experiências... sexuais.
André se sente um animal: “eu disse erguendo minhas patas sagitárias, tocando com meus cascos a estrutura do teto...” Talvez ele não queira destruir a família, mas, ao contrário, tema que isso seja inevitável, ao perceber, ao buscar nela, no cesto de roupa suja e nos corredores noturnos, a mesma podridão que pensa haver encontrado em si mesmo. Até porque seu sofrimento será tanto maior quanto hipocritamente os que o rodeiam mantenham-se em um pedestal... Pedestal no qual se colocam ainda muitos pais, acreditando sinceramente ser educativo posar de exemplo de "perfeição", ou simplesmente por lhes ser cômoda essa situação...
No entanto, caráter e bons valores nada têm a ver com falsidade e hipocrisia.
Alguns desses pais, ao invés de buscarem autoconhecimento, não raro encontram maneiras obscuras de realizar "à noite" as fantasias que condenam durante "o dia"... Sem falar que outros não fazem mesmo qualquer questão de conhecer o que se passa no fundo de suas almas tamponadas... Para que conhecer nossas fantasias se não devemos realizá-las?
A resposta a essa questão talvez seja: para nos tornarmos menos severos em nossos julgamentos, já que não precisaremos nos livrar de qualquer culpa jogando-a sobre quem quer que seja...; para que nossos filhos, sabendo-nos humanos, possam ser generosos consigo mesmos, desvencilhando-se progressivamente de seus conflitos e monstros juvenis. Pois, sabendo-nos humanos, sua ansiedade em não nos decepcionar será minimizada e, ao invés de fingirem ser o que não são; ao invés de se protegerem atrás de falsas identidades – "positivas" ( tentativa de agradar aos pais ), "negativas" ( desistência, diante da distância imaginada entre si mesmos e a perfeição; ou desistência, diante da hipocrisia percebida ou intuida ), simplesmente caminharão na direção da melhor maneira de serem úteis à sociedade, realizando todo o seu potencial humano e profissional, graças ao então possível autoconhecimento.
Mas voltemos a André: pode ser que ele tenha medo de contaminar a família com sua sexualidade, com a sexualidade que o domina, da mesma maneira que talvez imagine haver sido contaminado pelo toque materno (lembram-se de sua preocupação, logo no início da história, com os olhos do irmão caçula a observá-lo, para seguir seus passos? )...Perfeita metáfora desse receio seria o momento em que vemos Ana enfeitada com os objetos encontrados no baú ( metáfora para psique? ) de André...
Será que, afinal, toda a história não passa de uma maneira buscada pelo autor de nos fazer ver o quanto sofre um menino diante de sua“onipotente” sexualidade?
Lembremos que a história começa com uma masturbação e este ato até hoje é envolto em muitos sentimentos contraditórios e na culpa presente por trás de muitas das fantasias que invadem os rapazes...
Enfim, pode ser que, entre o primeiro toque em si mesmo até o clímax final, todas as emoções e acontecimentos relatados por Raduan tenham lugar apenas no espírito do jovem André, antes de que ele seja capaz de perceber que sua cabeça e seu coração humanos podem manter sob controle suas "patas sagitárias”.
Um colega de leitura disse perceber, no filme, um gesto incestuoso no abraço entre a mãe e André...
É possível que ele não o tenha inventado...
A dúvida permanece, no entanto, colocada da seguinte maneira: o toque mais sensual do que maternal teria de fato partido da mãe ou ali estava sendo retratada a forma através da qual André o recebia?
Por outro lado, parece-nos que ele era o filho preferido por ela. E isso, até onde podemos entender, poderia ser suficiente, por várias razões – inclusive pelo sentimento de culpa -, para desencadear as fantasias do menino, arremessando-o de maneira especialmente forte no caminho que acabamos de vê-lo percorrer...
Complexo de Édipo?
Bem, se, como suspeitáramos de início, essa for mesmo a pista para uma interpretação mais profunda de“Lavoura Arcaica”, talvez possamos até imaginar que toda essa tragédia não passe de caricatura fantasiosa do pavor, do medo, da "aversão" a si mesmo e à própria mãe e ao pai... possivelmente vividos por muitos meninos junto com a "culpa" ante suas primeiras, segundas e terceiras dúvidas, sensações, percepções, emoções, experiências... sexuais.
André se sente um animal: “eu disse erguendo minhas patas sagitárias, tocando com meus cascos a estrutura do teto...” Talvez ele não queira destruir a família, mas, ao contrário, tema que isso seja inevitável, ao perceber, ao buscar nela, no cesto de roupa suja e nos corredores noturnos, a mesma podridão que pensa haver encontrado em si mesmo. Até porque seu sofrimento será tanto maior quanto hipocritamente os que o rodeiam mantenham-se em um pedestal... Pedestal no qual se colocam ainda muitos pais, acreditando sinceramente ser educativo posar de exemplo de "perfeição", ou simplesmente por lhes ser cômoda essa situação...
No entanto, caráter e bons valores nada têm a ver com falsidade e hipocrisia.
Alguns desses pais, ao invés de buscarem autoconhecimento, não raro encontram maneiras obscuras de realizar "à noite" as fantasias que condenam durante "o dia"... Sem falar que outros não fazem mesmo qualquer questão de conhecer o que se passa no fundo de suas almas tamponadas... Para que conhecer nossas fantasias se não devemos realizá-las?
A resposta a essa questão talvez seja: para nos tornarmos menos severos em nossos julgamentos, já que não precisaremos nos livrar de qualquer culpa jogando-a sobre quem quer que seja...; para que nossos filhos, sabendo-nos humanos, possam ser generosos consigo mesmos, desvencilhando-se progressivamente de seus conflitos e monstros juvenis. Pois, sabendo-nos humanos, sua ansiedade em não nos decepcionar será minimizada e, ao invés de fingirem ser o que não são; ao invés de se protegerem atrás de falsas identidades – "positivas" ( tentativa de agradar aos pais ), "negativas" ( desistência, diante da distância imaginada entre si mesmos e a perfeição; ou desistência, diante da hipocrisia percebida ou intuida ), simplesmente caminharão na direção da melhor maneira de serem úteis à sociedade, realizando todo o seu potencial humano e profissional, graças ao então possível autoconhecimento.
Mas voltemos a André: pode ser que ele tenha medo de contaminar a família com sua sexualidade, com a sexualidade que o domina, da mesma maneira que talvez imagine haver sido contaminado pelo toque materno (lembram-se de sua preocupação, logo no início da história, com os olhos do irmão caçula a observá-lo, para seguir seus passos? )...Perfeita metáfora desse receio seria o momento em que vemos Ana enfeitada com os objetos encontrados no baú ( metáfora para psique? ) de André...
Será que, afinal, toda a história não passa de uma maneira buscada pelo autor de nos fazer ver o quanto sofre um menino diante de sua“onipotente” sexualidade?
Lembremos que a história começa com uma masturbação e este ato até hoje é envolto em muitos sentimentos contraditórios e na culpa presente por trás de muitas das fantasias que invadem os rapazes...
Enfim, pode ser que, entre o primeiro toque em si mesmo até o clímax final, todas as emoções e acontecimentos relatados por Raduan tenham lugar apenas no espírito do jovem André, antes de que ele seja capaz de perceber que sua cabeça e seu coração humanos podem manter sob controle suas "patas sagitárias”.
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